Deusa Inanna (Senhora dos leões)



“A história da mulher que se despiu, em sete portais sucessivos, de tudo que ela havia realizado na vida, até estar nua, com nada restando a não ser sua vontade de renascer”. (Diane Wolkstein - contadora de histórias) 

No mito, Inanna que é a deusa do Paraíso, radiante, alegre, cheia de vida, desce ao mundo inferior para visitar sua irmã gêmea, Ereshkigal, cujo nome significa “a senhora do grande espaço abaixo”, que acaba de perder o marido.
Solicitando entrada no kur, o ‘mundo do não retorno’, o guardião pergunta pelo motivo e ela responde que vem por causa de sua irmã, Ereshkigal, que se contorcia em dores. Inanna é obrigada a passar por sete portais, sendo-lhe exigido que a cada portal se desfizesse de uma de suas muitas insígnias (coroa, vestimenta, jóias) de modo que adentrou nu o grande salão real, dirigindo-se diretamente ao trono de sua irmã, com reverência. 
 “Então Ereshkigal fitou Inanna com os olhos da morte. Ela pronunciou contra ela a palavra da ira. Ela bradou contra ela o grito da culpa" e logo a matou, deixando-a pendurada num gancho até apodrecer.
Ao desfazer-se de suas insígnias como Rainha do Céu, Inanna vai de encontro aos seus aspectos mais escuros, mais reprimidos. Inanna e Ereshkigal são aspectos polarizados de uma mesma totalidade: os aspectos claro e escuro da Grande Deusa. A lua cheia e a lua negra, acertadamente chamada de lua nova, porque é nas profundezas da não existência, do caos, das trevas, que a vida se renova, renasce.

Ao ultrapassar o limiar do Kur, os reinos da morte sumerianos passam a prevalecer as leis de Ereshkigal. Nada do que aprendemos na vida nos serve diante da morte, nada nos resta a não ser nos render, nos submeter. Este olhar da morte, impiedoso e frio, não é fácil de sustentar.
O que traz Inanna de volta é a intervenção de Enki, deus da sabedoria, da água e da criatividade. Tomando um pouco da sujeira que estava debaixo de suas unhas pintadas de vermelho, “uma coisinha insignificante e rejeitada, até mesmo invisível anteriormente, e que sobrara do processo criativo maior”, ele modela duas criaturas que são enviadas ao submundo com a água e o alimento da vida, para se juntarem ao lamento de Ereshkigal, que estava para parir.
Aproximando-se da deusa e “ignorando os processos de distância e das leis do mundo superior”, estas criaturas instruídas pelo deus da sabedoria levam o aspecto escuro do feminino a tomar consciência da validade de sua experiência de dor. Ao honrarem o sofrimento e validarem essa experiência, possibilitam a transformação da destruição em generosidade. Como recompensa, ela lhes oferece o rio em toda sua plenitude, os campos plenos de colheita. Mas eles queriam apenas o corpo inerte de Inanna que, sendo-lhes concedido, eles reavivam.

Este é o momento de encararmos nossas mazelas, nossos ódios, selvageria, raiva, medos... Tudo que está oculto... E às vezes deixou oculto também nosso poder, nosso potencial criativo, nossa energia sexual... Não tenha medo da Sombra! Ela não é malvada como pintaram, ela é só o lugar para onde não costumamos olhar! Abraçar a Sombra é trazer estes aspectos à consciência para serem reintegrados em nossa psique. Por isso sempre voltamos dessa Jornada, das "noites escuras da alma", mais conscientes e inteiros.

E como nos diz Monika Von Koss, "cada uma de nós precisa percorrer este caminho para as profundezas de si mesma, tantas vezes quantas forem necessários, para encontrar nossas partes exiladas, recuperá-las e integrá-las na totalidade do que somos. Só assim, a totalidade da vida e da morte pode ser restaurada em sua integridade. Apenas quando reconhecemos e acolhemos todos os nossos aspectos, podemos recompor nossa integridade e nos tornarmos quem somos verdadeiramente, desde o princípio".


Fonte de pesquisa:
Mirella Faur - Teia de Thea
Mulheres e Deusas - Rosa Leonor
A Alta Sacerdotisa.

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